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    O que é sangramento livre? Confira tudo sobre o movimento da ginecologia natural ou “free bleeding”

    Atualizado em 16 de dezembro de 2022 |
    Publicação 06 de dezembro de 2022
    Informação verificada
    Revisão médica por Dra. Jenna Beckham, Obstetra e ginecologista, WakeMed, North Carolina, EUA
    Padrões de verificação de fatos do Flo

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    O sangramento livre, ou a opção por eliminar o fluxo menstrual naturalmente, sem produtos menstruais, é uma prática milenar. Neste artigo, duas especialistas explicam se é algo seguro e higiênico.

    A história do sangramento livre remonta a milênios, e a prática talvez exista desde que a humanidade surgiu. 

    Para algumas mulheres e pessoas que menstruam, o sangramento livre ou a escolha de não usar produtos menstruais é uma opção pessoal. É uma ótima maneira de protestar contra o constrangimento e o alto preço dos produtos menstruais, que ainda são inacessíveis para milhões de pessoas em todo o mundo. Para outras pessoas, é uma maneira mais ecológica de lidar com a menstruação. 

    Sua experiência com o período menstrual pode ser bastante pessoal. “Muitas pessoas ficam envergonhadas quando mancham as roupas durante o período menstrual. O sangramento livre tenta desfazer esse estigma”, explica a Dra. Sara Twogood, ginecologista obstetra da Junta Médica do Flo. 

    Confira esse guia especializado sobre sangramento livre com duas ginecologistas obstetras para conhecer a história do movimento moderno e descobrir se a prática é segura e higiênica.

    O que é sangramento livre?

    O sangramento livre é quando alguém menstrua e não usa produtos menstruais para coletar ou absorver o sangue, como absorventes internos ou externos. Talvez você fique hesitante no início, mas para algumas pessoas o sangramento livre é uma experiência incrivelmente libertadora. 

    “Algumas pessoas optam pelo sangramento livre como parte de um movimento para normalizar a menstruação e remover o estigma associado”, explica a Dra. Jenna Beckham, ginecologista obstetra, professora assistente clínica e membro da Junta Médica do Flo. Mas, com a pobreza menstrual presente em todo o mundo, outras pessoas “sangram livremente não por escolha, mas por falta de acesso a produtos menstruais”, complementa.

    A pobreza menstrual refere-se à falta de acesso a produtos menstruais devido a restrições financeiras. O Banco Mundial estima que pelo menos 500 milhões de mulheres e pessoas que menstruam em todo o mundo nem sempre têm acesso aos produtos, suporte e instalações de que precisam. Mais de 14% das mulheres em idade universitária nos EUA passaram por pobreza menstrual no ano passado, sendo 10% mensalmente. 

    O mais incrível é que o sangramento livre tem sido usado para apontar essas desigualdades. Um exemplo é a corredora Kiran Gandhi. Em 2015, ela disputou a Maratona de Londres sem segurar a menstruação, que manchou a calça. Ela disse que queria “dar visibilidade a minhas irmãs que não têm acesso a absorventes e, apesar das cólicas e da dor, escondem isso como se não existisse”.

    A Dra. Beckham aponta também que outras pessoas “consideram o impacto ambiental dos produtos menstruais descartáveis” ou optam por sangrar livremente porque se incomodam em ver absorventes com sangue ou não gostam de usar tampões ou copos menstruais. Se achar que o sangramento livre não é para você, mas quiser uma alternativa mais sustentável para segurar a menstruação, há diversas opções reutilizáveis disponíveis, como calcinhas absorventes (saiba mais abaixo). 

    Sangramento livre: a história do movimento do sangramento livre

    Há poucos registros antigos de menstruação e sangramento livre. Ainda assim, o que temos remonta a milhares de anos. Plínio, o Velho, historiador da Roma Antiga, escreveu sobre os “poderes maravilhosos” das mulheres menstruadas, chegando a dizer que bastava que andassem nuas pelos campos de trigo para afastar os insetos. 

    Acredita-se que o “movimento” do sangramento livre moderno tenha começado na década de 1970 nos Estados Unidos, com o surgimento do ativismo menstrual. Isso ocorreu na época da epidemia de síndrome do choque tóxico, uma condição rara, mas potencialmente fatal, que pode acontecer se um absorvente com sangue for deixado por muito tempo dentro do corpo. Só em 1980, 38 mulheres morreram nos Estados Unidos por choque tóxico relacionado ao período menstrual (absorventes internos devem ser usados por no máximo oito horas).

    As feministas da época também questionavam por que eram constrangidas por menstruar. Segundo a Dra. Twogood, para essas ativistas, mostrar o sangramento vermelho vivo era uma forma de “revoltar-se contra a ideia de que a menstruação causa vergonha, é nojenta, desagradável ou deve ser escondida”.

    Mais recentemente, o movimento foi associado a motivações como combater a estigmatização da menstruação, questionar os preços dos produtos menstruais e defender a visibilidade de homens trans e pessoas não binárias.

    O constrangimento menstrual está presente em todo o mundo. Um estudo revisado por pares descobriu que, no extremo oeste do Nepal, mulheres e meninas menstruadas são obrigadas a se isolar em currais e proibidas de tocar em outras pessoas ou objetos. Na Índia, a menstruação é frequentemente considerada um tabu. 

    Além disso, em um estudo com mais de mil estudantes nos EUA, 76% afirmaram que há uma associação negativa da menstruação como nojenta e anti-higiênica, e 65% concordam que a sociedade ensina a ter vergonha da menstruação. 

    A Dra. Beckham concorda que combater a estigmatização da menstruação é um fator que impulsiona o movimento do sangramento livre dos dias de hoje. Outro objetivo é aumentar a conscientização sobre grupos marginalizados, como pessoas transgênero e não binárias que também menstruam. 

    “Mais recentemente, o movimento foi associado a motivações como combater a estigmatização da menstruação, questionar os preços dos produtos menstruais e defender a visibilidade de homens trans e pessoas não binárias que também menstruam”, complementa a Dra. Beckham. 

    Sangramento livre: é anti-higiênico?

    Se você acha que o sangramento livre é para você, a próxima pergunta provavelmente é se a prática é segura e higiênica. 

    Em geral, praticar o sangramento livre é considerado seguro, mas é preciso levar em conta alguns pontos sobre outras pessoas ao seu redor. Isso porque a menstruação pode conter vírus transmitidos pelo sangue, como HIV, hepatite C ou hepatite B, que sobrevivem fora do corpo por dias ou até semanas. 

    “Uma boa regra é não expor outras pessoas sem consentimento, intencionalmente ou não, aos seus fluidos corporais, incluindo a menstruação”, aconselha Twogood. 

    Avalie cada situação à medida que se apresenta. Em que momentos você gostaria de sangrar livremente? Você planeja fazer isso o tempo todo ou também usar produtos menstruais? Sangrar livremente em casa ajuda a entender quanto sangue esperar e, já que nem sempre é possível diminuir o fluxo da menstruação, você ao menos vai saber os dias em que o sangramento é mais intenso.

    Dicas para tentar o sangramento livre

    O empoderamento associado ao movimento da menstruação sem absorventes pode parecer atraente, mas a realidade é que a prática envolve muita roupa suja e até mancha de menstruação no sofá. No entanto, há diversas opções para atenuar esses problemas, e algumas mulheres até aprendem a segurar a menstruação. 

    Outras optam por sangrar livremente nas próprias roupas. Você pode usar sua roupa íntima normal. Algumas pessoas escolhem cores mais claras intencionalmente. Outra dica importante: cubra o sofá ou cama com uma toalha ao se sentar ou deitar para absorver vazamentos. 

    Você também pode sangrar livremente usando calcinhas que absorvem o sangue. Os modelos podem variar um pouco, mas a ideia é que o tecido de microfibra da calcinha colete e absorva o sangue menstrual para manter a região seca e evitar vazamentos. 

    Segundo a Dra. Beckham, “algumas pessoas usam calcinhas absorventes que contam com componentes antimicrobianos”, impedindo o aumento de bactérias. 

    As calcinhas absorventes não devem ser usadas por mais de 12 horas. Você pode lavá-las à mão (até que a água saia limpa e não haja mais sangue na pia e no tecido) ou na máquina de lavar usando um ciclo delicado com água fria. Verifique a etiqueta antes de lavar a calcinha absorvente pela primeira vez. 

    Sangramento livre: conclusão

    Para quem opta pela prática, o sangramento livre é uma ferramenta poderosa para denunciar o constrangimento menstrual que persiste em todo o mundo, bem como a situação de milhões de pessoas que não têm acesso a produtos menstruais.

    “O estigma pode ser reduzido ao discutir o assunto abertamente com pessoas de todos os gêneros e evitar termos e expressões constrangedores ao falar sobre a menstruação”, conclui a Dra. Twogood. 

    A forma como você lida com as funções do seu corpo, desde a secreção vaginal aos sintomas da ovulação, passando pelo seu período menstrual, é algo bastante pessoal. Se quiser experimentar o sangramento livre, saiba que é seguro e higiênico, existe há muito tempo e pode ser feito como e quando você quiser.